Existe uma diferença silenciosa entre uma criança que ainda está aprendendo a escrever e uma criança que sofre porque escrever se tornou um território de frustração. Em muitas salas de aula, alunos com disortografia passam despercebidos entre correções vermelhas, cadernos marcados e comentários que, mesmo sem intenção, acabam ferindo profundamente. O problema é que quase sempre enxergam apenas o erro. Raramente enxergam o sofrimento por trás dele.
A disortografia não é preguiça, desatenção ou falta de estudo. Segundo a pesquisadora Maria Aparecida Ciasca, em estudos sobre dificuldades de aprendizagem publicados em 2003, trata-se de um transtorno específico que compromete a organização da escrita e a consolidação das regras ortográficas. Isso significa que a criança possui inteligência preservada, vontade de aprender e, muitas vezes, enorme esforço emocional, mas ainda assim encontra obstáculos persistentes para escrever corretamente.
A escrita é uma das tarefas cognitivas mais complexas do desenvolvimento humano. Ela depende da integração entre memória, linguagem, percepção auditiva, atenção e coordenação motora. Conforme explica Uta Frith, em pesquisas sobre aquisição da linguagem escrita realizadas em 1985, aprender a escrever exige um percurso gradual de amadurecimento cerebral e linguístico. Quando esse processo apresenta rupturas, surgem dificuldades persistentes que não desaparecem apenas com repetição ou cobrança.
Na prática escolar, a disortografia costuma aparecer através de trocas de letras, omissões, junção inadequada de palavras, dificuldades com pontuação e erros ortográficos recorrentes. Muitas crianças escrevem “caza” em vez de “casa”, “pranta” em vez de “planta” ou invertem sons semelhantes constantemente. Segundo Alessandra Capellini e Tatiana Conrado, em estudos sobre linguagem e aprendizagem publicados em 2009, esses erros seguem padrões específicos relacionados ao processamento fonológico da linguagem.
O grande problema é que a escola, muitas vezes, interpreta essas dificuldades como falta de atenção ou pouco interesse. E é exatamente aí que nasce uma das dores emocionais mais profundas da criança com disortografia: a sensação de nunca conseguir alcançar o que os outros conseguem com facilidade.
Com o tempo, escrever deixa de ser apenas uma atividade escolar e passa a ser uma experiência emocional negativa. A criança começa a evitar leitura em voz alta, sente vergonha do próprio caderno e desenvolve medo de errar. Segundo Lev Vygotsky, em “A Formação Social da Mente” (2001), o aprendizado não acontece separado das emoções. Quando a criança se sente humilhada ou incapaz, sua aprendizagem também é afetada.
Outro ponto importante é que a disortografia raramente aparece sozinha. Em muitos casos, ela está associada à dislexia e a outras dificuldades de linguagem. A pesquisadora Margaret Snowling, em estudos sobre transtornos da aprendizagem publicados em 2013, explica que alterações no processamento fonológico costumam afetar tanto a leitura quanto a escrita, tornando o diagnóstico ainda mais delicado.
Por isso, o olhar do educador faz diferença. Um professor preparado consegue perceber quando os erros ultrapassam o esperado para a faixa etária. Mais do que corrigir palavras, ele compreende processos. Ele entende que existem crianças lutando silenciosamente para conseguir organizar aquilo que o cérebro ainda não automatizou.
As intervenções precisam ser acolhedoras e consistentes. Exercícios de consciência fonológica, leitura compartilhada, estímulos auditivos, jogos linguísticos e estratégias visuais podem contribuir significativamente para o desenvolvimento da escrita. Segundo Linnea Ehri, pesquisadora da alfabetização e desenvolvimento da leitura, em estudos publicados em 2005, a aprendizagem ortográfica acontece por repetição significativa, associação sonora e construção gradual da memória das palavras.
Mas nenhuma estratégia funciona plenamente quando a criança está emocionalmente esgotada. Crianças que escutam diariamente frases como “você precisa prestar mais atenção” ou “isso é falta de capricho” começam a acreditar que são incapazes. E poucas dores são tão profundas quanto crescer sentindo que o próprio esforço nunca é suficiente.
A família também possui papel essencial nesse processo. Um ambiente acolhedor reduz a ansiedade associada à escrita. Quando os responsáveis valorizam pequenas conquistas e compreendem as dificuldades da criança, ela passa a perceber que o erro não define sua inteligência nem seu valor.
A disortografia revela algo que a educação ainda precisa aprender: nem toda dificuldade é visível. Algumas crianças carregam batalhas silenciosas dentro do próprio caderno. E talvez o maior erro da escola seja acreditar que corrigir palavras basta, quando, muitas vezes, o que aquela criança mais precisa é reconstruir a confiança em si mesma.
Compreender a disortografia é abandonar a lógica da punição e assumir uma postura verdadeiramente humana diante da aprendizagem. Afinal, escrever não é apenas juntar letras. Escrever também é conseguir existir sem medo de ser julgado a cada linha.
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REFERÊNCIAS
CAPELLINI, Simone Aparecida; CONRADO, Tatiana Lemos. Desempenho de escolares com dificuldades de aprendizagem em habilidades fonológicas, nomeação rápida, leitura e escrita. Revista Psicopedagogia, São Paulo, v. 26, n. 81, p. 368-377, 2009.
CIASCA, Sylvia Maria. Distúrbios de Aprendizagem: proposta de avaliação interdisciplinar. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.
EHRI, Linnea C. Learning to read words: theory, findings, and issues. Scientific Studies of Reading, v. 9, n. 2, p. 167-188, 2005.
FRITH, Uta. Beneath the surface of developmental dyslexia. In: PATTERSON, K. E.; MARSHALL, J. C.; COLTHEART, M. (org.). Surface Dyslexia: Neuropsychological and Cognitive Studies of Phonological Reading. London: Lawrence Erlbaum Associates, 1985. p. 301-330.
SNOWLING, Margaret J.; HULME, Charles. Children’s Reading Disorders: A Research Review. Oxford: Wiley-Blackwell, 2013.
VYGOTSKY, Lev S. A Formação Social da Mente. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
ZORZI, Jaime Luiz. Aprender a Escrever: a apropriação do sistema ortográfico. Porto Alegre: Artmed, 1998.
MOOJEN, Sônia Maria Pallaoro (org.). Dificuldades ou Transtornos de Aprendizagem? Compreensão dos problemas de aprendizagem e suas interfaces. Porto Alegre: Artmed, 2016.
CIASCA, Sylvia Maria; RODRIGUES, Silvia D. Transtornos de Aprendizagem: neurociência e interdisciplinaridade. Ribeirão Preto: Book Toy, 2015.
MALUF, Maria Regina. Metalinguagem e Aquisição da Escrita: contribuições da pesquisa para a prática da alfabetização. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.
Artigo escrito por Magda Sìlva
Licenciada em Língua Portuguesa, especialista em
Neuropsicologia, Psicopedagogia Clínica e Institucional, Problemas de
Aprendizagem e MBA em Gestão da Psicologia Organizacional.
Atua desde 2009 na Educação Infantil e nos Anos Iniciais,
dedicando sua trajetória ao desenvolvimento humano, à neuroeducação, à saúde
emocional e aos processos de aprendizagem. Compartilha conteúdos fundamentados
em conhecimento técnico, pesquisas científicas e experiência prática, para
oferecer suporte a educadores, famílias e profissionais que buscam promover uma
educação mais consciente, inclusiva e eficaz.

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