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domingo, 5 de janeiro de 2014

Como o Déficit de Atenção (TDAH) Impacta o Desenvolvimento Cognitivo e Socioemocional na Infância: Uma Análise Neuropsicológica e Educacional


Uma criança sentada em uma mesa escolar aparece pensativa, cercada por elementos visuais que representam atenção, emoções, aprendizagem e funcionamento cerebral. Ao fundo, ilustrações coloridas do cérebro simbolizam os desafios cognitivos e emocionais do TDAH

Existe uma dor silenciosa que atravessa muitas salas de aula e quase ninguém percebe. Ela aparece no aluno que não consegue terminar a atividade no mesmo tempo que os colegas. Na criança que escuta o próprio nome repetidamente em tom de bronca. No estudante que tenta prestar atenção, mas vê seus pensamentos escaparem antes mesmo de compreender completamente o que foi explicado. Durante muito tempo, essas crianças foram interpretadas apenas como agitadas, desobedientes ou preguiçosas. Poucos paravam para pensar que, por trás daquele comportamento, poderia existir um funcionamento cerebral diferente.

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, conhecido como TDAH, é uma condição do neurodesenvolvimento que interfere diretamente na atenção, no controle dos impulsos, na organização mental e na regulação emocional. Porém, reduzir o TDAH à ideia de “não conseguir se concentrar” é simplificar profundamente um fenômeno muito mais complexo e humano.

Segundo o pesquisador Russell Barkley, um dos maiores especialistas mundiais sobre o tema, o TDAH afeta especialmente as chamadas funções executivas do cérebro, responsáveis pela capacidade de planejar, organizar pensamentos, controlar impulsos e sustentar atenção por períodos prolongados. Isso significa que a criança não escolhe agir daquela maneira. Muitas vezes, ela está lutando internamente contra dificuldades que os outros simplesmente não conseguem enxergar.

O problema é que o ambiente escolar tradicional raramente foi pensado para crianças neurodivergentes. A escola valoriza silêncio constante, concentração contínua, rapidez nas respostas e capacidade de seguir múltiplas instruções sem distrações. Para uma criança com TDAH, essas exigências podem transformar o cotidiano escolar em uma experiência permanente de tensão e inadequação.

É comum que essas crianças esqueçam materiais, interrompam conversas, percam objetos, mudem de atividade antes de concluir a anterior ou demonstrem intensa inquietação corporal. Entretanto, existe uma diferença importante entre não querer fazer e não conseguir sustentar o funcionamento esperado. Muitas vezes, o adulto interpreta o comportamento como falta de esforço, quando na verdade existe um esgotamento mental invisível acontecendo dentro daquela criança.

Pesquisas em neurociência mostram que áreas cerebrais relacionadas ao planejamento, atenção e controle emocional funcionam de maneira diferente em indivíduos com TDAH. Além disso, alterações envolvendo substâncias químicas cerebrais ligadas à motivação e ao foco ajudam a explicar por que essas crianças conseguem manter atenção em atividades altamente estimulantes, mas encontram enorme dificuldade em tarefas repetitivas ou pouco interessantes.

Essa característica frequentemente gera julgamentos injustos. Muitos adultos dizem: “Se consegue passar horas em um jogo, também consegue prestar atenção na aula”. Porém, o cérebro da criança com TDAH responde de forma diferente aos estímulos. O interesse intenso ativa mecanismos de motivação que ajudam temporariamente na concentração. Isso não significa ausência do transtorno.

Outro aspecto extremamente importante envolve a memória de trabalho. Segundo estudos do pesquisador Thomas Brown, crianças com TDAH apresentam dificuldades em manter informações organizadas mentalmente enquanto executam tarefas. Na prática, isso significa esquecer instruções rapidamente, perder etapas de atividades ou não conseguir concluir raciocínios longos.

Esse funcionamento interfere diretamente na aprendizagem escolar. A criança pode compreender o conteúdo quando explicado oralmente, mas não conseguir organizar o pensamento para registrar no papel. Pode saber a resposta, mas esquecer parte da pergunta no meio da atividade. Pode estudar durante horas e, ainda assim, sentir que o conhecimento desaparece no momento da prova.

Infelizmente, a escola nem sempre compreende essas diferenças cognitivas. Em muitos casos, o aluno passa a receber rótulos dolorosos: “desorganizado”, “preguiçoso”, “malcriado”, “desinteressado”. O problema é que a repetição dessas palavras vai moldando a forma como a própria criança passa a se enxergar.

O psicólogo Lev Vygotsky defendia que o desenvolvimento humano acontece através das relações sociais e emocionais. Isso significa que a maneira como a criança é tratada influencia diretamente sua construção psicológica. Quando ela cresce ouvindo que é incapaz, problemática ou insuficiente, começa lentamente a acreditar nisso.

É nesse ponto que o sofrimento emocional do TDAH se torna profundamente invisível. Porque o transtorno não afeta apenas atenção. Afeta autoestima, pertencimento, segurança emocional e identidade.

Muitas crianças com TDAH vivem em estado constante de frustração. Elas percebem que precisam se esforçar mais que os colegas para alcançar resultados semelhantes. Tentam organizar materiais e esquecem. Tentam permanecer quietas e não conseguem. Tentam controlar impulsos, mas agem antes de pensar. Aos poucos, surge a sensação dolorosa de nunca conseguir corresponder às expectativas dos adultos.

Segundo Daniel Goleman, pesquisador da inteligência emocional, crianças emocionalmente invalidadas tendem a desenvolver maiores dificuldades na autorregulação afetiva. No TDAH, isso aparece de maneira intensa. Pequenas frustrações podem provocar explosões emocionais, crises de choro, irritabilidade ou impulsividade desproporcional.

O problema é que muitas dessas reações são vistas apenas como “drama” ou “falta de limites”, quando na verdade refletem dificuldades neurológicas reais na regulação emocional. A criança não está apenas exagerando. Muitas vezes, ela realmente sente emoções de forma mais intensa e possui menor capacidade de controlar respostas impulsivas.

Além disso, existe a dimensão social do transtorno. Crianças com TDAH frequentemente enfrentam rejeição entre colegas devido à impulsividade, interrupções constantes ou dificuldade em respeitar turnos nas brincadeiras. Isso gera isolamento social e amplia ainda mais o sofrimento emocional.

Pesquisas mostram que crianças rejeitadas socialmente possuem maior risco de desenvolver ansiedade, depressão e dificuldades emocionais ao longo da vida. Portanto, o impacto do TDAH não pode ser analisado apenas pelo desempenho acadêmico. Trata-se de uma condição que atravessa toda a experiência subjetiva da infância.

Outro ponto essencial envolve o cansaço emocional dos pais. Muitas famílias vivem exaustas tentando lidar com comportamentos difíceis sem compreender completamente o que acontece. Em alguns casos, os próprios responsáveis se sentem culpados, julgados ou fracassados diante das dificuldades da criança.

Isso cria ambientes familiares marcados por tensão constante. Broncas excessivas, punições frequentes e desgaste emocional acabam aumentando ainda mais os sintomas comportamentais. A criança passa a viver em estado de alerta, sentindo que decepciona as pessoas o tempo inteiro.

Por isso, especialistas defendem que o tratamento do TDAH não deve focar apenas na criança, mas também na orientação familiar e escolar. O acolhimento emocional possui impacto tão importante quanto qualquer intervenção clínica.

Quando adultos compreendem o funcionamento do transtorno, a relação muda completamente. Em vez de enxergar “má vontade”, passam a perceber sofrimento. Em vez de apenas punir comportamentos, começam a construir estratégias de apoio.

No ambiente escolar, pequenas adaptações podem transformar profundamente a aprendizagem. Instruções mais curtas, organização visual, pausas estratégicas, divisão das tarefas em etapas menores e atividades mais dinâmicas ajudam significativamente no desempenho dessas crianças.

A pesquisadora Susan Rief, referência internacional em educação inclusiva, afirma que crianças com TDAH aprendem melhor quando recebem estrutura clara, previsibilidade e reforço positivo. Isso não significa facilitar excessivamente o ensino, mas adequar estratégias às necessidades cognitivas do aluno.

Outro aspecto importante é compreender que inclusão não significa diminuir expectativas. Crianças com TDAH possuem enorme potencial intelectual. Muitas apresentam criatividade elevada, pensamento acelerado, curiosidade intensa e grande capacidade imaginativa. O problema é que essas qualidades frequentemente ficam escondidas atrás das dificuldades comportamentais.

Quando encontram ambientes acolhedores, essas crianças conseguem desenvolver habilidades extraordinárias. O que destrói seu potencial não é o transtorno em si, mas a experiência constante de rejeição e incompreensão.

Também é fundamental falar sobre diagnóstico responsável. Nem toda criança agitada possui TDAH. A infância naturalmente envolve movimento, curiosidade e impulsividade. O diagnóstico exige avaliação cuidadosa, observação clínica e análise de diferentes contextos da vida da criança.

Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, os sintomas precisam estar presentes em múltiplos ambientes e causar prejuízo significativo no funcionamento social, emocional ou acadêmico. Isso evita diagnósticos precipitados e interpretações superficiais sobre o comportamento infantil.

Em relação ao tratamento, diferentes abordagens podem ser utilizadas. Psicoterapia, acompanhamento psicopedagógico, orientação parental e adaptações escolares costumam fazer parte do processo. Em alguns casos, o uso de medicação também pode ser indicado.

Entretanto, existe muito preconceito em torno da medicação. Algumas pessoas acreditam que ela “anula a personalidade” da criança. Porém, quando bem acompanhada, a medicação pode ajudar significativamente na capacidade de concentração, impulsividade e organização mental.

Ainda assim, nenhum recurso terapêutico substitui aquilo que talvez seja mais importante para uma criança com TDAH: sentir-se compreendida.

Uma criança emocionalmente acolhida desenvolve mais segurança para enfrentar suas dificuldades. Quando ela encontra adultos que acreditam em seu potencial, começa lentamente a reconstruir a própria autoestima.

A educação emocional possui papel central nesse processo. Crianças com TDAH precisam aprender a reconhecer emoções, lidar com frustrações e compreender o próprio funcionamento sem vergonha ou culpa. Precisam descobrir que possuir dificuldades não significa ser incapaz.

Mais do que ensinar conteúdos escolares, a educação precisa ensinar pertencimento. Porque nenhuma criança consegue aprender plenamente quando vive acreditando que existe algo errado consigo.

Talvez uma das maiores violências silenciosas dentro da educação seja transformar diferenças neurológicas em defeitos morais. Durante anos, muitas crianças com TDAH cresceram ouvindo que precisavam “se esforçar mais”, quando na verdade já estavam fazendo esforço muito acima do imaginável para simplesmente acompanhar o cotidiano escolar.

Reconhecer o TDAH exige abandonar julgamentos simplistas sobre comportamento infantil. Exige compreender que desenvolvimento humano não acontece de maneira linear. Cada cérebro possui ritmos, necessidades e formas diferentes de aprender.

Quando a escola, a família e a sociedade compreendem isso, o transtorno deixa de ser apenas um conjunto de sintomas e passa a ser entendido dentro da complexidade humana.

Conclusão

O TDAH não é apenas uma dificuldade de atenção. É uma condição que atravessa emoções, aprendizagem, relações sociais e construção da identidade infantil. Seu impacto vai muito além da sala de aula e alcança dimensões profundas da autoestima e do pertencimento.

Compreender o TDAH significa abandonar a lógica do julgamento e construir uma cultura de acolhimento. Significa perceber que comportamento também comunica sofrimento. E significa, principalmente, reconhecer que crianças não precisam ser perfeitas para merecer compreensão.

Muitas vezes, o que mais transforma uma criança com TDAH não é conseguir permanecer sentada por mais tempo. É finalmente encontrar adultos que consigam enxergar além do comportamento e perceber a criança inteira que existe ali dentro.

🔗 Continuação recomendada
Se este conteúdo fez sentido para você, existe um ponto ainda mais profundo que complementa esta leitura.

Eu explico com mais detalhes como essas relações entre cérebro, linguagem e comportamento se desenvolvem em outro artigo sobre COMO A AFASIA RECONFIGURA A LINGUAGEM HUMANA: fundamentos neurológicos, tipologias clínicas e desafios terapêuticos contemporâneos.

Esse conteúdo pode enriquecer ainda mais sua compreensão sobre neuroeducação, desenvolvimento infantil e saúde emocional.

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Aqui você encontrará análises profundas sobre neuropsicologia, comportamento humano, inclusão escolar e aprendizagem de forma acessível, crítica e humanizada.

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Às vezes, o que mais transforma uma criança não é aprender rápido. É descobrir que sua dificuldade pode ser compreendida sem vergonha.

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

BARKLEY, Russell A. Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH): guia completo para pais, professores e profissionais da saúde. Porto Alegre: Artmed, 2008.

BROWN, Thomas E. Transtorno de déficit de atenção: a mente desfocada em crianças e adultos. Porto Alegre: Artmed, 2007.

BRONFENBRENNER, Urie. A ecologia do desenvolvimento humano: experimentos naturais e planejados. Porto Alegre: Artmed, 1996.

GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.

RIEF, Susan F. Como alcançar e ensinar crianças com TDAH/TDA: estratégias práticas, recursos e intervenções para ajudar crianças com déficit de atenção. San Francisco: Jossey-Bass, 2005.

VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Artigo escrito por Magda Sìlva

Licenciada em Língua Portuguesa, especialista em Neuropsicologia, Psicopedagogia Clínica e Institucional, Problemas de Aprendizagem e MBA em Gestão da Psicologia Organizacional.

Atua desde 2009 na Educação Infantil e nos Anos Iniciais, dedicando sua trajetória ao desenvolvimento humano, à neuroeducação, à saúde emocional e aos processos de aprendizagem. Compartilha conteúdos fundamentados em conhecimento técnico, pesquisas científicas e experiência prática, para oferecer suporte a educadores, famílias e profissionais que buscam promover uma educação mais consciente, inclusiva e eficaz.

Quais São os Sinais da Discalculia e Como Essa Dificuldade Afeta a Aprendizagem Matemática?



Criança com dificuldade em matemática olhando confusa para números

A matemática costuma ocupar um lugar simbólico dentro da escola. Desde cedo, muitas crianças aprendem que “ser bom em matemática” significa ser inteligente, rápido e competente. O problema começa quando dificuldades persistentes passam a ser interpretadas como preguiça, distração ou falta de esforço. Nesse cenário, a discalculia emerge como um dos transtornos de aprendizagem mais silenciosos e menos compreendidos do contexto educacional contemporâneo.

A discalculia é classificada como um transtorno específico de aprendizagem caracterizado por dificuldades persistentes na compreensão de quantidades, no processamento numérico e na realização de operações matemáticas, mesmo quando há inteligência preservada e acesso adequado ao ensino (Associação Americana de Psiquiatria, DSM-5, 2013). Contudo, limitar a discalculia a uma definição diagnóstica seria ignorar seus impactos emocionais, pedagógicos e subjetivos.

Mais do que dificuldade para resolver contas, a discalculia interfere na forma como a criança organiza cognitivamente o mundo numérico. O que para muitos alunos parece automático, para outros exige esforço intenso, desgaste emocional e constante tentativa de compensação.

Segundo Stanislas Dehaene, em O Senso Numérico (2011), o cérebro humano possui sistemas especializados na percepção de quantidades e magnitudes. Esses sistemas funcionam como base do pensamento matemático. Em crianças com discalculia, há dificuldades na organização dessas representações numéricas, comprometendo a compreensão do significado dos números desde os primeiros anos escolares.

Isso explica por que muitas crianças conseguem decorar operações, mas não compreendem realmente o que estão fazendo. O problema não está apenas na execução mecânica do cálculo, mas na construção do sentido matemático.

Os sinais podem surgir ainda na educação infantil. Algumas crianças apresentam dificuldade para reconhecer números, identificar sequências ou compreender relações simples de quantidade, como “mais” e “menos”. Outras demonstram extrema dificuldade para associar número e quantidade concreta.

Na prática escolar, isso aparece de formas variadas:

  • dificuldade em contar objetos corretamente;

  • trocas frequentes de sinais matemáticos;

  • incapacidade de memorizar tabuadas;

  • dificuldade em compreender problemas matemáticos;

  • confusão entre direita e esquerda;

  • dificuldade para interpretar relógios e valores monetários;

  • erros persistentes mesmo após repetição.

Muitos desses sinais acabam sendo confundidos com desatenção ou desinteresse. Brian Butterworth, pesquisador da Universidade de Londres e autor de The Mathematical Brain (2005), explica que crianças com discalculia frequentemente desenvolvem estratégias compensatórias para esconder suas dificuldades, o que pode mascarar o transtorno durante anos.

Esse processo produz consequências emocionais profundas.

A escola, sem perceber, muitas vezes transforma a matemática em espaço de sofrimento psicológico. Crianças que erram repetidamente começam a desenvolver medo da exposição, vergonha de participar e sensação constante de incapacidade.

Mark Ashcraft, pesquisador da ansiedade matemática (2002), demonstra que o medo relacionado aos números interfere diretamente no funcionamento da memória de trabalho. Ou seja: quanto maior a ansiedade, maior a dificuldade de raciocínio matemático.

Isso cria um ciclo doloroso.

A criança erra porque possui dificuldade neurocognitiva. Depois passa a sentir ansiedade diante da matemática. A ansiedade compromete ainda mais o desempenho. E o baixo desempenho reforça sentimentos de fracasso.

Pouco a pouco, a matemática deixa de ser apenas uma disciplina e passa a funcionar como marcador emocional de incompetência.

Carol Dweck, em Mindset (2006), explica que crianças que internalizam a ideia de incapacidade tendem a evitar desafios e reduzir seu engajamento escolar. Quando a dificuldade matemática é constantemente associada à inteligência, o aluno passa a acreditar que “não nasceu para aprender”.

Esse talvez seja um dos aspectos mais perigosos da discalculia: ela afeta não apenas o desempenho acadêmico, mas a construção da autoestima.

O problema se agrava porque o sistema educacional ainda privilegia rapidez, produtividade e comparação constante entre alunos. Crianças que precisam de mais tempo para compreender relações matemáticas acabam sendo vistas como “lentas”, quando, na verdade, necessitam apenas de abordagens pedagógicas diferentes.

Howard Gardner, em Estruturas da Mente (1995), já defendia que inteligência humana não pode ser reduzida a um único padrão de desempenho. Existem múltiplas formas de inteligência, e dificuldades específicas em matemática não anulam capacidades criativas, emocionais, linguísticas ou artísticas.

Mesmo assim, muitas crianças crescem acreditando que seu valor depende exclusivamente de desempenho escolar.

No contexto familiar, a situação também pode gerar sofrimento. Pais frequentemente interpretam a dificuldade como falta de estudo ou esforço insuficiente. Comentários como “você precisa prestar mais atenção” ou “isso é muito fácil” acabam intensificando sentimentos de inadequação.

O mais delicado é que muitas crianças com discalculia realmente se esforçam intensamente.

Elas estudam, repetem exercícios e tentam acompanhar os colegas, mas continuam enfrentando enorme dificuldade para compreender conceitos aparentemente simples. Isso produz cansaço emocional silencioso.

Além das dificuldades cognitivas, a discalculia também pode estar associada a alterações na memória de trabalho e no processamento visuoespacial. Segundo David Geary, pesquisador da área de cognição matemática (2013), muitas crianças apresentam dificuldade em manter informações numéricas ativas enquanto realizam operações mentais.

Na prática, isso significa perder etapas do raciocínio durante cálculos simples.

Também são comuns dificuldades na organização espacial dos números no papel, desalinhamento de operações e inversões numéricas. Por isso, interpretar a discalculia apenas como “dificuldade para fazer contas” é uma simplificação inadequada.

O diagnóstico da discalculia exige avaliação cuidadosa e multidisciplinar. Nem toda dificuldade em matemática configura transtorno de aprendizagem. Fatores emocionais, lacunas pedagógicas, ansiedade escolar e contextos educacionais fragilizados também podem interferir no desempenho.

Por isso, a avaliação deve considerar persistência dos sinais, impacto funcional e histórico de aprendizagem da criança.

A identificação precoce faz enorme diferença.

Quando professores e familiares reconhecem os sinais rapidamente, torna-se possível construir estratégias pedagógicas mais adequadas e evitar sofrimento emocional prolongado.

Intervenções eficazes costumam utilizar:

  • materiais concretos;

  • recursos visuais;

  • jogos pedagógicos;

  • aprendizagem multisensorial;

  • adaptação de tempo;

  • mediação emocional durante atividades matemáticas.

Segundo Butterworth e Laurillard (2010), abordagens que integram experiências concretas ajudam o cérebro a construir representações numéricas mais estáveis.

Mas talvez a intervenção mais importante seja emocional.

Crianças com discalculia precisam sentir que errar não as torna menos inteligentes. Precisam experimentar ambientes onde a aprendizagem não esteja baseada apenas em desempenho imediato.

O educador possui papel fundamental nesse processo.

Mais do que ensinar cálculos, ele ajuda a proteger emocionalmente a relação da criança com o conhecimento. Um professor acolhedor pode impedir que dificuldades específicas se transformem em marcas permanentes de fracasso.

Isso exige mudança profunda na maneira como a escola compreende aprendizagem.

A educação contemporânea ainda está muito presa à lógica da padronização. Espera-se que todos aprendam no mesmo ritmo, da mesma forma e dentro do mesmo tempo. Porém, o cérebro humano não funciona de maneira homogênea.

Cada criança constrói conhecimento a partir de trajetórias cognitivas, emocionais e relacionais singulares.

Compreender a discalculia é também compreender isso.

É reconhecer que dificuldades matemáticas não são sinônimo de incapacidade intelectual. São formas específicas de funcionamento neurocognitivo que exigem escuta, sensibilidade pedagógica e intervenções adequadas.

Além disso, existe uma questão profundamente humana envolvida nesse tema.

Muitas crianças passam anos acreditando que são “menos capazes” apenas porque seu cérebro organiza números de forma diferente. E algumas carregam esse sentimento até a vida adulta.

Por isso, discutir discalculia não é apenas discutir matemática.

É discutir inclusão, autoestima, saúde emocional e dignidade no processo de aprendizagem.

Quando a escola abandona interpretações simplistas sobre erro e passa a compreender as singularidades cognitivas dos alunos, o aprendizado deixa de ser espaço de humilhação e passa a ser possibilidade real de desenvolvimento.

Conclusão

A discalculia revela que aprender matemática envolve muito mais do que decorar fórmulas ou repetir exercícios. Trata-se de um processo profundamente ligado ao funcionamento cerebral, às experiências emocionais e à maneira como a criança constrói sua relação com o conhecimento.

Quando sinais persistentes são ignorados ou interpretados como preguiça, o sofrimento emocional cresce silenciosamente. Por outro lado, quando existe acolhimento, compreensão e intervenção adequada, torna-se possível transformar trajetórias escolares que antes pareciam marcadas apenas por frustração.

Mais do que ensinar números, educar também significa proteger a forma como uma criança passa a enxergar a si mesma.

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Às vezes, o que mais transforma uma criança não é aprender rápido. É descobrir que sua dificuldade pode ser compreendida sem vergonha.

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

ASHCRAFT, Mark H. Math anxiety: personal, educational, and cognitive consequences. Current Directions in Psychological Science, v. 11, n. 5, p. 181-185, 2002.

BUTTERWORTH, Brian. The Mathematical Brain. London: Macmillan, 2005.

BUTTERWORTH, Brian; LAURILLARD, Diana. Low numeracy and dyscalculia: identification and intervention. ZDM Mathematics Education, v. 42, p. 527-539, 2010.

DEHAENE, Stanislas. O Senso Numérico: como a mente cria a matemática. Porto Alegre: Penso, 2011.

DWECK, Carol S. Mindset: a nova psicologia do sucesso. São Paulo: Objetiva, 2006.

GARDNER, Howard. Estruturas da Mente: a teoria das inteligências múltiplas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

GEARY, David C. Early foundations for mathematics learning and their relations to learning disabilities. Current Directions in Psychological Science, v. 22, n. 1, p. 23-27, 2013.

GEARY, David C. Mathematical disabilities: cognitive, neuropsychological, and genetic components. Psychological Bulletin, v. 114, n. 2, p. 345-362, 1993.

SHALEV, Ruth. Developmental Dyscalculia. Journal of Child Neurology, v. 19, n. 10, p. 765-771, 2004.

VON ASTER, Michael; SHALEV, Ruth. Number development and developmental dyscalculia. Developmental Medicine & Child Neurology, v. 49, n. 11, p. 868-873, 2007.

Artigo escrito por Magda Sìlva

Licenciada em Língua Portuguesa, especialista em Neuropsicologia, Psicopedagogia Clínica e Institucional, Problemas de Aprendizagem e MBA em Gestão da Psicologia Organizacional.

Atua desde 2009 na Educação Infantil e nos Anos Iniciais, dedicando sua trajetória ao desenvolvimento humano, à neuroeducação, à saúde emocional e aos processos de aprendizagem. Compartilha conteúdos fundamentados em conhecimento técnico, pesquisas científicas e experiência prática, para oferecer suporte a educadores, famílias e profissionais que buscam promover uma educação mais consciente, inclusiva e eficaz.