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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O que é o Assédio Moral nas instituições de ensino? Dinâmicas invisíveis, impactos psíquicos, e estratégias de enfrentamento!




Professora emocionalmente exausta em sala de aula representando o impacto do assédio moral 

Existem violências que deixam marcas visíveis. Outras acontecem em silêncio, atrás da porta da sala dos professores, durante uma reunião pedagógica ou em uma mensagem enviada fora do horário de trabalho.

Muitos educadores convivem diariamente com humilhações sutis, desqualificações constantes e um sentimento difícil de explicar. Não conseguem apontar exatamente o que está acontecendo, mas sentem que algo dentro deles está sendo destruído aos poucos.

E talvez essa seja uma das faces mais silenciosas do sofrimento docente: o assédio moral.

Nem sempre ele aparece em forma de gritos, ameaças ou conflitos explícitos. Muitas vezes, manifesta-se através da exclusão, do constrangimento, da ironia constante, da retirada de autonomia ou da sensação permanente de estar sendo desvalorizado. O mais doloroso é que, em diversos casos, a vítima demora a perceber que está vivendo uma situação de violência psicológica.

Enquanto isso, o sofrimento se acumula. A autoestima enfraquece. A confiança profissional diminui. E aquilo que antes era apenas desconforto passa a afetar a saúde emocional, os relacionamentos e até o sentido de permanecer na profissão.

O ambiente escolar, frequentemente idealizado como espaço de construção de conhecimento, diálogo e emancipação, abriga, paradoxalmente, dinâmicas de violência simbólica e psicológica que atravessam silenciosamente as relações profissionais. Entre essas manifestações, o assédio moral nas instituições de ensino emerge como um fenômeno complexo, persistente e estrutural, cuja gravidade ainda não é plenamente reconhecida em sua dimensão institucional e subjetiva.

O assédio moral, entendido como um conjunto reiterado de práticas abusivas que visam desestabilizar emocionalmente o trabalhador, compromete não apenas a saúde psíquica do educador, mas também a qualidade do processo pedagógico. Conforme aponta Hirigoyen, em Assédio Moral: A Violência Perversa no Cotidiano (2002), trata-se de uma violência insidiosa, frequentemente naturalizada, que se instala nas micro-relações e se perpetua por meio do silêncio institucional. No contexto educacional, essa violência adquire contornos específicos, vinculados às condições precárias de trabalho, à sobrecarga docente e às estruturas hierárquicas rígidas.

Este artigo dialoga com estudos contemporâneos sobre saúde emocional docente e com reflexões desenvolvidas em processos formativos voltados ao bem-estar do educador e propõe uma análise crítica do assédio moral nas instituições de ensino, explorando suas formas de manifestação, seus impactos na subjetividade docente e as possibilidades de enfrentamento coletivo e institucional.

 

Desenvolvimento

1. Assédio moral como violência simbólica no espaço escolar

Muitas vezes, o professor passa anos acreditando que o problema está nele. Que talvez esteja exagerando, sendo sensível demais ou incapaz de lidar com a pressão. Mas o assédio moral raramente começa dentro da vítima. Ele nasce em ambientes que normalizam a humilhação, o medo e o silêncio.

A compreensão do assédio moral exige ultrapassar uma leitura individualizante do problema. Trata-se de uma prática que se inscreve em estruturas de poder e em culturas organizacionais que legitimam a violência. Bourdieu (1998) denomina esse fenômeno como violência simbólica uma forma de dominação que se exerce com a cumplicidade dos dominados, frequentemente sem que estes tenham plena consciência de sua condição.

No ambiente escolar, o assédio moral se manifesta por meio de gestos aparentemente banais: silenciamento (interrompido constantemente) em reuniões, a coordenadora que corrige o educador diante de todos, exclusão de grupos de decisão,

desqualificação pública, isolamento profissional, atribuição de tarefas incompatíveis ou retirada de funções. Essas práticas, quando reiteradas, produzem um efeito cumulativo devastador, corroendo a autoestima e a identidade profissional do educador. Por exemplo, quando fala do assédio moral, você poderia trazer cenas reais do cotidiano escolar, a retirada de turmas sem explicação,  ironia constante disfarçada de brincadeira.

A cartilha da SAE/SEPE-RJ explicita que o assédio moral não se limita a atos explícitos de agressão, mas inclui atitudes sutis que, ao longo do tempo, desestabilizam a vítima. Essa dimensão invisível do fenômeno dificulta sua identificação e denúncia, contribuindo para sua perpetuação.

 

2. Tipologias do assédio: verticalidade, horizontalidade e cultura organizacional

O assédio moral nas instituições de ensino pode ser analisado a partir de suas formas estruturais, especialmente nas modalidades vertical e horizontal.

O assédio vertical ocorre em relações hierárquicas, geralmente de gestores em relação a professores. Nesses casos, observa-se a imposição autoritária de normas, o uso do medo como mecanismo de controle e a deslegitimação sistemática do trabalho docente. Dejours (1992) destaca que a organização do trabalho pode se tornar um dispositivo de sofrimento quando transforma o reconhecimento em instrumento de poder.

Já o assédio horizontal emerge entre colegas, frequentemente impulsionado por contextos de escassez, competitividade e precarização. A intensificação do trabalho docente, associada a baixos salários e múltiplos vínculos empregatícios, fragiliza os laços de solidariedade, favorecendo comportamentos agressivos e individualistas.

Essas duas formas não são excludentes; ao contrário, coexistem e se reforçam em uma cultura organizacional que naturaliza a violência. O chamado “pacto de silêncio” no qual colegas se omitem diante das agressões constitui um elemento central na manutenção do assédio, configurando uma cumplicidade coletiva que aprofunda o sofrimento da vítima.

 

3. Perfis de agressores e dinâmicas de poder

A literatura sobre assédio moral identifica diferentes perfis de agressores, que, embora variados, compartilham uma lógica comum: a necessidade de afirmação de poder por meio da desqualificação do outro.

O “capataz moderno”, por exemplo, reproduz uma lógica autoritária baseada na vigilância e na punição, enquanto o “troglodita” atua de forma explícita e agressiva, impondo decisões sem diálogo. Já o perfil “autoritário” se caracteriza por instabilidade e arbitrariedade, criando um ambiente de insegurança constante.

Esses perfis não devem ser compreendidos apenas como características individuais, mas como expressões de uma cultura institucional que valoriza a produtividade em detrimento do bem-estar. Foucault (1975) já apontava que o poder se exerce de forma capilar, atravessando as relações cotidianas e moldando comportamentos.

 

4. Impactos na saúde emocional e identidade docente

Os efeitos do assédio moral sobre os educadores são profundos e multifacetados. Do ponto de vista psicológico, observa-se o desenvolvimento de transtornos como ansiedade, დეპressão, insônia e síndrome de burnout (Maslach; Jackson, 1981). A repetição das agressões leva à internalização da desqualificação, fazendo com que a vítima passe a duvidar de sua própria competência.

Do ponto de vista identitário, o assédio compromete a construção da identidade profissional. Nóvoa (1992) enfatiza que a docência é uma profissão que se constitui na relação com o outro; quando essa relação é marcada pela violência, há uma ruptura na percepção de si como educador.

Além disso, as consequências extrapolam o ambiente de trabalho, afetando relações familiares e sociais. Em casos extremos, podem levar ao afastamento da profissão, ao desemprego e até ao suicídio, evidenciando a gravidade do problema.

 

5. Gênero, vulnerabilidade e interseccionalidade

O assédio moral não afeta todos os sujeitos de forma homogênea. Estudos indicam que mulheres, pessoas LGBTQIA+ e indivíduos com condições de saúde ou deficiência estão mais vulneráveis a esse tipo de violência.

No caso das mulheres, o assédio moral frequentemente se articula com o assédio sexual, sendo utilizado como forma de retaliação diante da recusa. Hirata (2009) destaca que as desigualdades de gênero no mundo do trabalho intensificam a exposição das mulheres a situações de violência.

Essa perspectiva interseccional é fundamental para compreender a complexidade do fenômeno e para elaborar estratégias de enfrentamento que considerem as especificidades dos diferentes grupos.

6. Estratégias de enfrentamento: entre o individual e o coletivo

O enfrentamento do assédio moral exige uma abordagem multifacetada, que articule ações individuais, coletivas e institucionais.

No plano individual, a documentação das agressões, a busca por apoio psicológico e o acionamento de instâncias legais são estratégias fundamentais. No entanto, como destaca Dejours (1999), a resistência individual é limitada quando não há suporte coletivo.

No plano coletivo, a solidariedade entre colegas e a atuação de sindicatos desempenham um papel crucial. A ruptura do pacto de silêncio é um passo essencial para a visibilização do problema.

No plano institucional, é necessário implementar políticas de prevenção, canais de denúncia eficazes e programas de formação que promovam uma cultura organizacional baseada no respeito e na cooperação.

7. Marco legal e desafios contemporâneos

No Brasil, apesar da ausência de uma legislação federal específica sobre assédio moral, existem dispositivos legais que podem ser utilizados para sua punição, como a Constituição Federal e a Consolidação das Leis do Trabalho. Em âmbito estadual, algumas leis, como a Lei nº 12.250/2006 em São Paulo, representam avanços importantes.

Entretanto, a efetividade dessas normas ainda é limitada, seja pela dificuldade de comprovação do assédio, seja pela cultura de silenciamento que permeia as instituições.

Conclusão

O assédio moral nas instituições de ensino não é um fenômeno isolado, mas uma expressão de estruturas de poder e de culturas organizacionais que naturalizam a violência. Sua persistência revela não apenas a fragilidade das políticas institucionais, mas também a necessidade de uma transformação profunda nas relações de trabalho no campo educacional.

Combater o assédio moral implica reconhecer sua existência, romper o silêncio e construir coletivamente ambientes de trabalho mais justos e humanizados. Trata-se, em última instância, de defender a dignidade do educador e a qualidade da educação.

Referências

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho. São Paulo: Cortez, 1992.
DEJOURS, Christophe. Subjetividade, trabalho e ação. Revista Produção, 1999.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1975.
HIRIGOYEN, Marie-France. Assédio moral: a violência perversa no cotidiano. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
HIRATA, Helena. Gênero, trabalho e desigualdades. São Paulo: Boitempo, 2009.
MASLACH, Christina; JACKSON, Susan. The measurement of experienced burnout. Journal of Occupational Behavior, 1981.
NÓVOA, António. Os professores e a sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992.

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 Artigo escrito por Magda Sìlva

Licenciada em Língua Portuguesa, especialista em Neuropsicologia, Psicopedagogia Clínica e Institucional, Problemas de Aprendizagem e MBA em Gestão da Psicologia Organizacional.

Atua desde 2009 na Educação Infantil e nos Anos Iniciais, dedicando sua trajetória ao desenvolvimento humano, à neuroeducação, à saúde emocional e aos processos de aprendizagem. Compartilha conteúdos fundamentados em conhecimento técnico, pesquisas científicas e experiência prática, para oferecer suporte a educadores, famílias e profissionais que buscam promover uma educação mais consciente, inclusiva e eficaz.